O momento presente. Olha-o. Sente-o.
Deixa que ele respire, como uma coisa viva. E tem muito cuidado: ele pode quebrar-se.
Pega nele e desembrulha-o com muito cuidado. Olha devagar para ele, parado no canto do quarto, ou misturado com as folhas abertas de um jornal.
Contempla o momento presente como um amigo antigo, tão familiar que não sentes medo dessa presença quieta, ali no canto do quarto. Deixa que o vento sopre sobre ele.
Procura contemplá-lo no silêncio mais absoluto.
Não há memória nesse olhar. Nunca o viste antes.
Tenha a forma que tiver — um bebé, um cristal, um diamante, uma caneta, uma pera, um postal, uma pessoa, um patim — não se parece com nada que tenhas visto antes.
Só está ali, à tua frente, como um pedaço de argila à espera de que tu o tomes nas tuas mãos para lhe dares uma forma qualquer — um bebé, um cristal, um diamante e assim por diante. E se não o fizeres, ele far-se-á sozinho, o momento presente.
Não chores sobre ele.
No máximo dá um suspiro. Mas discreto, baixinho, quase inaudível.
Não o agarres com voracidade — lembra-te, ele pode partir-se.
Não te rias dele, por mais ridículo que pareça.
Concentra-te nessa falta absoluta de emoção. Não esperes nada dele, nenhuma alegria, nenhum calor no coração. Ele não te vai dar nada, o momento presente.
Deixe que ele respire, como uma coisa viva. Respira tu também, como coisa viva que és.
Respira e respira. Conte até dez, até vinte talvez.
Daqui a pouco o momento presente vai começar a transformar-se noutra coisa.
Uma coisa inteiramente imprevisível - nem ele sabe em quê: os momentos presentes não têm controlo sobre si mesmos.
Se o telefone tocar, atende.
Se baterem à porta, vai abrir.
Quando voltares a estar desocupada, procura-o novamente com os olhos.
Ele já não vai lá estar.
E vai haver outro no seu lugar.
E então, como a um bebé ou a um cristal, toma-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode partir-se, o momento presente.
Experimenta então dizer “eu amo-te”, ou qualquer coisa assim, para ninguém.
Adaptado de Caio Fernando Abreu

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