quarta-feira, 1 de junho de 2011

A zanga que queria ser borboleta

Era uma vez uma zanga.
Era uma zanga muito grande e muito má.
Gritava muito alto, chorava e dava murros e pontapés. Às vezes também batia com os pés no chão e fazia birras.
Mas esta zanga tinha um sonho. Gostava de ser borboleta.
E estava sempre à espera que uma borboleta pousasse perto dela para lhe perguntar o que devia fazer para ser como ela.
Mas as borboletas não poisavam perto dela porque se assustavam com os gritos e os murros que a zanga dava, e tinham medo.
Um dia, uma borboleta muito, muito, muito distraída pousou ao pé da zanga.
A zanga, primeiro não deu por isso e já tinha mesmo a boca toda aberta para gritar, quando percebeu que ao pé dela estava uma borboleta!
Ficou com o coração aos saltos! E teve que fazer um esforço muito grande para não parecer zangada, e a borboleta não se ir embora.
Ensaiou a voz um bocadinho, para não sair muito alta e tomou um bocadinho de mel, para falar com voz doce.
E depois perguntou à borboleta como é que se fazia para ser borboleta:
- Borboleta, como é que se faz para ser uma borboleta como tu?
A borboleta ficou muito surpreendida com a pergunta. Não sabia responder…
Depois, pensou um bocadinho e respondeu que era preciso bater as asas e voar.
A zanga experimentou bater os braços. Bateu, bateu, abanou, abanou, mas não foi capaz de sair do mesmo sítio.
- É porque és muito pesada, disse a borboleta.
A zanga não gostou mesmo nada do comentário e esteve quase a dar um valente grito à borboleta, mas conteve-se a tempo! “Se lhe tivesse gritado a borboleta tinha-se ido embora sem me ensinar a ser borboleta”, pensou.
- Como posso ser mais leve? – perguntou a zanga depois de ter bebido um golo de água e ter comido mais um bocadinho de mel.
- Não sei, mas nós, as borboletas, somos alegres, gostamos de dançar e gostamos das flores. Tu gostas dessas coisas?
A zanga ficou muito calada. Alegria? Dançar? Flores?
- Como é que se faz para ser alegre? – perguntou por fim a zanga.
Foi a vez de a borboleta ficar calada. Fazia cada pergunta, ela…
- Acho que para se ser alegre basta querer. Podes sempre escolher ser alegre ou não. - disse finalmente a borboleta. - Experimenta. Fecha os olhos e pensa em coisas boas. – acrescentou.
A zanga fechou os olhos e respirou fundo. Não se lembrava de nenhuma coisa boa… Respirou outra vez e outra vez, cada vez mais devagarinho e cada vez mais fundo. Estava a ser difícil pensar numa coisa boa… E ela que queria tanto ser alegre para conseguir ser borboleta…
-Não me lembro de nada bom. Só penso em coisas que me fazem ficar zangada… – disse a zanga à borboleta.
- Tenta mais um bocadinho. – disse a borboleta.
A zanga fechou outra vez os olhos e respirou fundo. Respirou outra vez e outra vez, cada vez mais devagarinho e cada vez mais fundo. Sentia a borboleta ao pé de si, atenta. A borboleta! Claro! De repente lembrou-se de uma coisa boa que lhe tinha acontecido – tinha conhecido a borboleta e estava a tentar ser como ela! Isto era uma coisa mesmo muito boa!
A borboleta olhava para a zanga com atenção e começou a ver a cara da zanga a ficar cada vez mais bonita, mais bonita, até que descobriu um sorriso na sua boca grande.
Então disse-lhe baixinho:
- Tenta agora, mas não abras os olhos. Imagina flores de todas as cores e o céu azul e o sol e o lago e os passarinhos a cantar e as árvores verdes e uma grande roda de meninos a rir. Bate os braços, vá, não é preciso muita força.
A zanga começou a bater os braços e deu também aos pés e, aos poucos, começou a voar.
A borboleta voava à sua volta, fazendo piruetas, muito contente.
Depois desse dia nunca mais ninguém ouviu a zanga a gritar. Também nunca mais ninguém apanhou um murro dela, ou um pontapé. A zanga gosta tanto de voar e de ser como as borboletas que está sempre alegre, para ficar mais leve.
A zanga continua a voar, de vez em quando, dá uma gargalhada e gosta de acariciar as flores e as caras dos meninos que vão ao parque.
Cada vez é mais parecida com uma borboleta.
E se vires uma borboleta por aí a voar, atenção! Pode muito bem ser ela!

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